Blog do Coração


O tabagismo é responsável por aproximadamente 45% das mortes em homens com menos de 65 anos de idade, e por 40% dos óbitos de mulheres da mesma faixa etária



A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que o tabagismo esteja relacionado, direta ou indiretamente, à morte de seis milhões de indivíduos no mundo por ano. Se medidas efetivas de controle do tabagismo não forem tomadas, em 2030 esse número poderá chegar a oito milhões de mortes – 80% delas em países em desenvolvimento.


O tabagismo é responsável por aproximadamente 45% das mortes em homens com menos de 65 anos de idade, e por mais de 20% de todos os óbitos por doença coronariana em homens com idade superior a 65 anos. Além disso, homens fumantes entre 45 e 54 anos de idade têm quase três vezes mais probabilidade de morrer de infarto do miocárdio que os não-fumantes da mesma faixa etária.


Entre as mulheres com mais de 65 anos de idade, o tabagismo responde por 40% dos óbitos por doença coronariana. O risco de infarto do miocárdio, embolia pulmonar e tromboflebite em mulheres jovens que fumam e usam anticoncepcionais orais chega a ser dez vezes maior em relação às que não fumam e usam este método de controle da natalidade.


Uma vez cessado o hábito de fumar, o risco de doença cardíaca começa a declinar. Após um ano, o risco é reduzido à metade, e após dez anos é semelhante ao de indivíduos sem antecedentes de tabagismo. Constituintes da fumaça do cigarro


Existem duas formas de se inalar a fumaça do cigarro: 1) quando o fumante aspira, absorvendo pela boca substâncias tóxicas (corrente primária); 2) quando a fumaça que sai livremente da ponta acesa do cigarro ou de outro derivado do tabaco, para o ar ambiente e põe em risco a saúde daqueles que não fumam (corrente secundária).


A fumaça do cigarro é uma mistura complexa de cerca de 5.000 substâncias tóxicas diferentes. Muitos desses componentes são gerados durante a queima da folha de tabaco, sendo uma fase gasosa e outra particulada. A fase gasosa representa aproximadamente 60% da fumaça da queima do tabaco, e 99% dessa fase é composta por nitrogênio, oxigênio, dióxido de carbono, monóxido de carbono, hidrogênio, argônio e metano. O 1% restante traz 43 outros componentes


Os hidrocarbonetos aromatizados presentes na fumaça do tabaco são carcinogênicos, isto é, causam o câncer. O principal representante desse grupo é o benzopireno. Outros componentes tóxicos menos estudados são: nitrosaminas, substâncias radioativas, polônio 210 e carbono 14, agrotóxicos DDT, benzeno, metais pesados (chumbo e cádmio), níquel, cianeto hidrogenado, amônia e formol.


A fase particulada contém nicotina e alcatrão. A quantidade de alcatrão da fumaça de um cigarro varia de 3 a 40 mg de acordo com as condições de queima, condensação, tamanho do cigarro, presença de filtro, porosidade do papel, conteúdo do cigarro, peso e tipo de tabaco. Outro fator determinante na composição da fumaça do tabaco é a temperatura de queima que alcança 884ºC durante a aspiração. Estima-se que a corrente primária da fumaça do tabaco contenha cerca de 150 mg de constituintes metálicos, principalmente, potássio (90%), sódio (5%), arsênico (0,3-1,4%) e traços de alumínio, cálcio e cobre. Os componentes inorgânicos são na sua maioria cloretos, porém, berílio e cromo podem estar presentes em baixas quantidades.


A nicotina é um alcaloide composto presente em plantas da família Solenacea, como o tabaco (Nicotiana tabacum). Sua composição altamente lipofílica permite que seja facilmente absorvida no trato gastrintestinal, pele e mucosas, atravessa as barreiras hemato-encefálica e feto-placentária. A nicotina é a principal responsável pela dependência química e doenças cardiovasculares relacionadas ao tabagismo. Quando aspirada chega ao cérebro em oito segundos, ao passo que se aplicada diretamente (via endovenosa), levaria 14 segundos. A nicotina é absorvida entre 50 e 90% durante o ato de fumar, podendo ser detectada e quantificada no plasma e na urina de 24 h, com vida média de 120 minutos. Sessenta por cento da substância é transformada em cotinina através de reações de oxidação pelo citocromo P450. A cotinina, um metabólito de menor toxicidade que apresenta propriedades psicoativas semelhantes às da nicotina, é lentamente depurada da circulação (vida média de 15 horas) por eliminação predominantemente hepática, podendo ainda ser excretada pelos rins dependendo do pH urinário.



Juan Yugar, médico cardiologista, é diretor da SOCESP.