Blog do Coração


A adaptação ao marca-passo (MP) ou ao Cardiodesfibrilador Implantável (CDI) é semelhante em muitos aspectos, no entanto, pacientes portadores de CDI são obrigados a conviver com a possibilidade e a imprevisibilidade dos choques, experiência que gera uma reação emocional intensa em decorrência da sensação de perda de controle e medo da morte.

O paciente vivencia uma situação de luto de um órgão altamente valorizado. Primeiramente um luto pela perda da função cardíaca. A partir daquele momento seu coração não é mais capaz de executar suas funções de maneira natural, necessitando de um artifício para mantê-lo vivo.

Esta é uma situação gera sentimentos contraditórios e confusos, sendo esperado que o paciente apresente algum tipo de alteração emocional no decorrer do tratamento. Tal ocorrência é considerada natural e até mesmo esperada, diante das circunstâncias impostas pela doença e a terapêutica utilizada.

Outras perdas consideradas secundárias também acompanham esse processo de adoecimento, como: restrição de atividades física, dependência de medicamentos, mudanças no estilo de vida e outras perdas significantes.

Se por um lado o uso MP, ou do CDI, tem sido altamente eficaz no tratamento clínico das arritmias, por outro, alterações emocionais que podem ocorrer após o implante, podem comprometer seriamente a qualidade de vida desses pacientes. Por essa razão, os benefícios reais só serão alcançados quando o paciente, além de desfrutar de bem-estar físico, sinta-se confortável e seguro na esfera emocional.

Outras questões, consideradas fatores de risco psicológico, também influenciam no processo de adaptação do aparelho e consequentemente na qualidade de vida do portador.

A idade, por exemplo, é um fator importante que deve ser considerado quando analisamos o ajuste psicológico. Para o idoso, a perda de saúde é de certa forma esperada, pois está inserida no processo de envelhecer, enquanto que, nos mais jovens, as limitações impostas pela doença e as fantasias relacionadas ao aparelho, tornam esse processo mais penoso.

Características de personalidade vão modular a ambivalência afetiva desses pacientes, tornando-se assim um fator decisivo nesse processo adaptativo. Constata-se que existe uma grande expectativa do paciente com relação à eficácia do aparelho e à melhora na qualidade de vida, por outro lado existe um incômodo em depender de um aparelho para manutenção da vida. Nos portadores de CDI, a ambivalência afetiva ainda é mais intensa devido aos possíveis choques.

O CDI é instalado no interior do corpo, capaz de identificar e reagir a uma parada cardíaca. Quando o aparelho identifica uma parada, dispara um ou vários choques ressuscitadores e o coração volta a bater, diminuindo o risco de morte súbita. Esta definição nos leva a concluir que o CDI protege o paciente de uma morte súbita, mas não o protege de ser invadido por fantasias.

Estudos demonstram e a prática clinica comprova que a vivência dos choques é algo assustador e essa experiência é o principal fator desencadeante de transtornos psiquiátricos.

Por fim, levando em consideração a singularidade de cada paciente, a maioria dos portadores de MP, ou CDI, apresenta uma adaptação adequada, uma redução na sintomatologia e consequentemente uma qualidade de vida satisfatória.

Por: Mayra Luciana Gagliani, membro do Departamento de Psicologia da SOCESP, tenho sido diretora.