Blog do Coração


A famosa frase de Hamlet, personagem de William Shakespeare, é a questão com a qual nos deparamos todos os dias, as escolhas que fazemos e os caminhos que seguimos.

Com a imprensa e o médico não é diferente, quando o telefone toca no consultório com solicitação de uma entrevista. Falar ou não falar? Ouvimos relatos de muitos especialistas que preferiram não conceder entrevistas por inúmeros motivos.

O tempo é escasso e não dá para parar o consultório para atender o jornalista. É verdade, o médico, muitas vezes, divide o seu tempo entre o consultório, o hospital, as aulas na faculdade de Medicina – quando é professor, os cursos de reciclagem, as reuniões nas entidades médicas... Ah! E ainda a família, afinal temos que nos dedicar aos filhos, pais, cônjuges e parentes. Nessa montanha de atividades, ainda vem o repórter querer saber se “a serotonina previne ou causa osteoporose porque, na revista Nature, um estudo foi publicado sobre o tema”.

Outra questão muito comum é o receio do que estará nas páginas do jornal no dia seguinte. Muitos médicos preferem manter a imprensa afastada para evitar problemas. Afinal já ouvimos inúmeros relatos de especialistas afirmando que concederam entrevistas e o jornalista distorceu tudo o que ele havia dito.

Um terceiro fato é o nome a zelar. Muitos médicos com anos de janela preferem não se expor, ter uma conduta mais low profile e investir o seu tempo apenas no paciente e nas atividades acadêmicas e científicas.

Recentemente, o oncologista Drauzio Varella relatou em entrevista o início dele no rádio. Ele havia recebido um convite de uma emissora de São Paulo para gravar spots sobre saúde. Começava o boletim sempre da seguinte forma: “Oi, eu sou o doutor Drauzio Varella e hoje nós vamos falar da prevenção da AIDS...”. O médico achou a proposta absurda. Como ele que se formou na USP, tinha um consultório, era professor, iria se expor daquela forma?

Refletiu um pouco mais e acabou aceitando o convite. Foi o início desse grande comunicador da saúde. É inegável a contribuição que o Drauzio Varella deu para toda a sociedade no sentido de popularizar hábitos saudáveis e no conhecimento maior de muitas doenças.

Esse é também o papel do médico, principalmente os que têm uma projeção maior, são professores de escolas de Medicina, possuem um vasto currículo científico. A contribuição para a imprensa é para toda a sociedade.

Muitas vezes, quando nos deparamos com um grande especialista que se recusa a dar entrevistas, argumentamos com a história dele próprio e o quanto ele pode contribuir para inúmeras pessoas, não apenas aquelas que vão ao consultório. E sempre completamos: se você não falar, não der entrevista, o jornalista vai ter que buscar outra pessoa para falar, provavelmente, não tão qualificada ou tão habilitada e que poderá falar bobagem ou não explicar de forma tão precisa o problema ou a questão que está sendo debatida.

Reflita um pouco mais quando o telefone tocar e vier uma solicitação de entrevista. Vivenciamos inúmeras situações de especialistas que relutaram muito em falar com o jornalista, mas depois ficaram bastante satisfeitos com o resultado, com a matéria publicada no jornal ou revista ou mesmo com a exibição da entrevista na TV ou no rádio. Em contrapartida podemos contar nos dedos os casos mal sucedidos, de médicos que detestaram a experiência e que acabaram se chocando com a imprensa.

Ser ou não ser, eis a questão? Seja... um entrevistado!

Fonte: Assessoria de Imprensa da SOCESP