Blog do Coração


“O avanço da Medicina não diminui o impacto psicológico que a indicação de um transplante provoca no paciente, que tem dificuldade para aceitar e se adaptar a uma mudança tão radical no corpo”, destaca Ana Augusta Maria Pereira, membro do departamento de Psicologia da SOCESP.

O transplante em crianças e adolescentes depende, em grande parte, dos pais, em especial, da mãe. De alguma forma, também são pacientes porque cabe a eles a decisão da cirurgia, sem descartar o grau de autonomia da criança ou adolescente em expressar seu desejo. A capacidade dos pais de se responsabilizar pelo tratamento e de lidar com o estresse psicológico e social inerentes ao transplante, em suas várias fases, é alvo de interesse da equipe de saúde.

Pais e filhos vivem uma situação de regressão emocional intensa. A mãe serve de intérprete do que está acontecendo. Se a situação é interpretada pela mãe como catastrófica e irreparável, a criança vai acreditar no que a mãe diz, ou sente. A criança responde aos conflitos de acordo com sua idade e com a magnitude dos mesmos e apresenta sintomas variados, como falta de apetite, apatia, irritabilidade, recusa em receber os cuidados necessários, terror noturno e outros.

É marcante a transformação de pacientes entre 10 e 16 anos, por exemplo. Em função da doença cardíaca, em geral, têm um corpo infantil. Depois do transplante, passam a ter, rapidamente, um corpo compatível com a idade cronológica e com características sexuais secundárias, como pêlos e bigode, o que causa estranhamento.

Atenção especial deve ser dada aos adolescentes, que têm maior dificuldade em aderir ao regime medicamentoso, comprometendo os resultados do tratamento. O transplante é um novo parto. É preciso que os pais consigam lidar com isso. Às vezes, os pais se escondem atrás da problemática da criança para fugir de problemas particulares. Depois de uma cirurgia bem sucedida, querem manter o mesmo padrão, impedindo que a criança cresça e se estabeleça como indivíduo independente.

Ao psicólogo cabe avaliar os fatores de risco psicológico, identificar distúrbios mentais que possam se exacerbar após a cirurgia e que não são reativos à condição de doença crônica, identificar comportamentos autodestrutivos e que possam dificultar a adesão ao tratamento, ou condições que possam indicar uma reação negativa. Do ponto de vista terapêutico, o psicólogo deve ajudar o paciente a incorporar o enxerto e a fazer ajustes no estilo de vida, necessários à sua sobrevivência, após o transplante.