Blog do Coração


Arritmias podem ser benignas ou malignas

Um assunto de grande interesse, mas de pouco entendimento, é a arritmia cardíaca. Existe a impressão de que se trata de uma única coisa, mas, na verdade, tem diversas classificações. As arritmias podem ser benignas, que causam apenas desconforto, ou malignas, com alto risco de morte súbita.

O coração é um músculo, que para efetuar seu trabalho, necessita da energia proveniente da irrigação sanguínea, feita pelas artérias coronárias. Os batimentos são coordenados de forma organizada pela transmissão de um impulso elétrico, levado por um sistema de condução especializado por todo o músculo, fazendo com que a contração seja efetiva para o bombeamento do sangue para o corpo e para os pulmões.

Esta “parte elétrica” do coração é ativada e adaptada às condições que organismo é exposto. Por exemplo, ao correr uma maratona há um maior consumo de oxigênio pelo organismo, o que faz com que aumente a frequência cardíaca (FC) - batimentos por minuto do coração - e a quantidade de sangue bombeada para o corpo, suprindo suas necessidades. Isso acontece após um incremento dos impulsos elétricos que ativam o músculo cardíaco.

Qualquer alteração que leve a um funcionamento elétrico inadequado do sistema de condução ocasiona a arritmia cardíaca, que pode ocorrer de algum fator externo que desencadeie uma atividade elétrica inadequada no músculo cardíaco e/ou doenças do próprio sistema de condução. Em relação à FC, podem ocorrer arritmias que elevem (taquicardia), diminuam (bradicardia) ou a mantenham dentro de uma faixa normal.

Por exemplo, um jovem de 20 anos com coração normal faz uso de cocaína, o que leva a uma descarga alta de adrenalina maior do que o organismo está preparado para suportar, desencadeando uma taquicardia, cuja condução elétrica não segue os “caminhos normais”, elevando de tal forma a FC (taquicardia ventricular), que evolui para um colapso circulatório, que leva à morte se não for rapidamente revertido com um desfibrilador elétrico. Neste caso, a função do choque é parar a arritmia, dando chance para o coração restabelecer seu ritmo normal.

Uma senhora de 78 anos com histórico de hipertensão, tabagismo, diabetes, colesterol alto que já teve dois infartos, necessitando de cirurgia de revascularização do miocárdio, começa a apresentar tontura e falta de ar. Quando procura o médico, faz um eletrocardiograma e observa que a FC está baixa, menor que quarenta batimentos por minuto. Dependendo do tipo de arritmia, esta paciente pode ser candidata a implante de marca-passo definitivo, cuja função é assumir de forma artificial o controle dos batimentos cardíacos.

A arritmia mais comum é a fibrilação atrial. O coração tem o seu marca-passo natural, nó sinusal, responsável pela adaptação da FC às mudanças diárias às quais o organismo é exposto. Por exemplo, a FC costuma diminuir durante o sono e aumentar na atividade física, estresse ou infecção. No caso da fibrilação atrial, grande número de focos no átrio do coração manda estímulos de forma desorganizada e rápida para os ventrículos, estímulos “filtrados” por outro nó, o atrioventricular. O resultado é um ritmo irregular, que pode ser sentido ou não pelo paciente. Essa arritmia pode levar a frequências cardíacas altas ou baixas, pode aparecer de forma súbita, intermitente e até ser permanente. O fato do átrio não contrair adequadamente, fazendo com que o sangue não circule como deveria dentro da sua cavidade, leva ao maior risco desta arritmia: a formação de um trombo. Eventos tromboembólicos, como derrame e oclusão arterial aguda, muitas vezes, acontecem em pacientes com essa arritmia.  Doentes de alto risco necessitam de medicações que tentam evitar a formação de trombos.

Por: Dr. Lucas Velloso Dutra